Raio-X, por Tiago Mendonça: apostas bem pagas no Estoril

Comentarista Tiago Mendonça analisa a corrida que abriu a temporada das corridas longas em 2019 – os 300km do Estoril.

A dez minutos do Circuito Estoril fica o famoso cassino local, onde os turistas que passam por Cascais lançam sua sorte em apostas audaciosas, que nem sempre pagam o prêmio desejado. Como no ditado popular, a casa sempre vence, não é mesmo?

Quando se trata de jogos de cartas, ou de uma bolinha quicando em uma roleta, às vezes seus esforços não resultam em nada.

Mas ali, no mesmo autódromo que recebeu a Fórmula 1 entre 1984 e 1996, o jogo é bem mais justo e pode, sim, premiar a ousadia. Foi o que a gente viu na primeira etapa da temporada da Porsche Império Endurance Series, em que um acidente na largada e uma decisão rápida entre estrategista e piloto ajudaram a construir uma vitória surpreendente na geral.

Surpreendente? Sim, é o que pode se dizer quando o carro que vence a prova é o mesmo que se envolveu no acidente da primeira curva, provocando a entrada do safety car. Naquele momento, entrou a rapidez de raciocínio do experiente José David, que consultou o piloto pelo rádio e percebeu que a situação se resolveria sozinha, em poucos minutos.

De imediato, ficar na pista parecia uma opção ruim, porque os treinos e a prova de sprint já haviam mostrado o quanto um resgate pode ser complexo no Estoril e suas implacáveis caixas de brita. Só que desta vez, não havia resgate a ser feito.

Os carros envolvidos naquele enrosco voltaram acelerando para o traçado, o que representaria uma intervenção muito curta do safety car. Como estava um pouco mais distante do pelotão dianteiro, em função do tempo perdido, o carro #31 pôde maturar a ideia de não parar, enquanto os demais não tiveram essa percepção.

Quase todos recolheram aos boxes para cumprir a primeira parada de 6 minutos.

É mais vantagem cumprir o pit obrigatório em bandeira amarela, correto? Corretíssimo. Mas acontece que a relargada veio ao término da segunda volta, como previu José David, e aí quem estava nos boxes perdeu muito tempo em relação aos adversários. Lembrei imediatamente da minha corrida de estreia como comentarista da Cup, em Goiânia, na temporada de 2017.

Na cabine do Estoril, disse ao microfone que apesar de pouco usual, a estratégia de não parar poderia se pagar, como vimos naquela prova de dois anos antes.

Voltando um pouco no tempo, naquela corrida estava todo mundo meio ‘condicionado’ a parar em qualquer intervenção do safety car, porque na etapa anterior, no VeloCittà, isso havia garantido as vitórias de Rodolfo Toni/Dennis Dirani e Lico Kaesemodel/Ricardo Zonta. Mas o automobilismo gosta de pregar peças.

O safety car também foi curto em Goiânia e parar nas primeiras voltas acabou não sendo a melhor estratégia.

Fechando este parêntesis e voltando ao Estoril, o carro #31 pararia somente nas outras intervenções do carro de segurança. Estas sim, bem mais longas.

Uma delas, entre as voltas 17 e 22, foi para um resgate complicado do carro de Rodrigo Mello na caixa de brita e levou dez minutos no total. Pra quem precisa de oito na parada (dois da volta de entrada em ritmo lento e mais seis obrigatórios), realmente é o paraíso. Mas espera um pouco aí: então uma única decisão, na primeira volta, decide uma corrida?

Longe disso. Conversei por telefone com o Alan Hellmeister dias depois e ele comentava que, em qualquer corrida, você precisa ter a sorte ao seu lado pra poder vencer. Claro que seria bem mais complicado pra eles não fosse a opção de ficar na pista depois do enrosco na largada. Mas se a dupla de pilotos não estivesse afiada, guiando muito, a sorte também não resolveria.

Não custa lembrar que foi a primeira corrida – e a primeira vitória – de Hellmeister desde o grave acidente sofrido em uma prova de Gran Turismo em Monza, na Itália, quase um ano antes (em setembro de 2018). Na entrevista de pódio, ele lembrou da conversa com Dener Pires, que segundo ele foi o primeiro promotor a contactá-lo depois da saída da UTI.

Dener disse que o retorno de Alan tinha de ser pela Porsche Império Endurance Series, o que acabou de fato acontecendo.

Outra aposta que pagou muito bem foi a de Átila Abreu e Léo Sanchez. Ainda em processo de adaptação à categoria, em uma carreira curtíssima no esporte a motor, Léo foi incumbido de fazer os primeiros stints da prova. Ou seja, completar suas 28 voltas obrigatórias de uma vez só (no caso da etapa do Estoril, isso representava uma hora de tocada direto).

Pra piorar, eles ainda sofreram um acréscimo de tempo por cumprir um pit stop abaixo dos 6 minutos regulamentares.

Mas Léo não só deu conta do recado como baixou seu tempo de volta em três segundos entre a classificação e a corrida. Quando entregou o carro para Átila, ainda não eram necessariamente os favoritos, mas o ‘Grandão’, como brinca Paulo Totaro, começou a diminuir muito rapidamente a diferença em relação a ele, Totaro, que era o líder da classe 3.8.

A três voltas do fim, Átila assumiu a ponta para vencer pela primeira vez na Porsche Império Endurance Series e também a primeira depois do acidente sofrido na Stock Car em abril, que o deixou algumas semanas em recuperação. Ao final da prova, ele mesmo reconheceu ainda estar se adaptando às estratégias dinâmicas das provas longas.

Todos nós estamos, Átila. Estaremos eternamente, aliás. O barato desse esporte é a imprevisibilidade.

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